20.7.17

Admiradíssima

Acabo descobrir que foi há cinco anos, nesse mesmo dia, que eu inventei, meio sem querer, a série "Admirada": eu dizendo os poemas que amo lá no meu canal do Youtube. Se tu for lá agora tem 115 vídeos. Cento e quinze vezes em que algo eu li me abriu tanto a boca de espanto que as palavras saíram e eu liguei a câmera e pá. Poetas novos e seus primeiros livros. Poetas ainda inéditos no papel. Os grandes, os já consagrados. Admiração pra todo lado.

Tem Drummond e tem Allan Jonnes. Tem Adélia e LuNa Vitrolira. Elisa Lucinda e Viviane Mosé e Manoel de Barros e Samuel Luis Borges. Tem Vitor Paiva, Pedro Cezar, Bobby Baq, Ana Blue, Angélica Freitas, Ana Martins Marques, Marcela Melo, Pedro Bomba, Beatriz Provasi, Renata Corrêa, Elizeu Braga, Mel Duarte, André Oviedo, João Bernardo, Lucas Vasconcellos, Alessandra Colasanti, Ricardo Domeneck, Rafael Iotti, Matilde Campilho, Paulo Scott. E Vinicius, Hilda, Rupi, Wislawa, Warsan, Pessoa, Drexler, Arnaldo. Até Osvaldo Montenegro tem lá.

Hoje, que eu trato a poesia como trabalho, olho pra minha vida e vejo um caminho coerente e absolutamente instintivo. Poesia. Eu vivo disso. Mesmo quando ao invés de receber pelo trabalho, pago. Mesmo quando não me dá nenhum trabalho, mesmo quando é só ligar a câmera e pá. É trabalho e é missão e é encanto e alimento.

E claro que a estréia da ideia tinha que ser com esse poemaço do Everton Behenck, o muso dessa playlist ao lado de dona Aline Bei. Não conhecem? Mergulhem lá na "Admirada" e admirem-se também.

O Risco no Sesc

Dizer poemas na sede do Sesc Rio em plena manhã de chuva, assim sem microfone nem nada... O risco, os riscos...

Evento interno de apresentação do 16° Festival de Inverno Sesc, julho/2017.



De Maria Rezende, Risco.

17.7.17

A imensa revolução do amor próprio

Faz um ano que eu e Ana Alexandrino fizemos o ensaio de fotos que é o cenário do espetáculo Carne do Umbigo. Faz um ano que eu tomei um sacode ao me ver nua pela lente incrível da Cana e li o textão da Jen e escrevi o meu.

Ontem eu tive uma reunião com amigas prum projeto novo no qual tô a fim de botar pra jogo os ângulos ainda inéditos dessa sessão. Um ano em que eu me propus a me amar como eu sou. Um ano dessa imensa revolução.

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Senta que lá vem #textão.

Então hoje foi o dia em que a Jennifer Aniston, musa da minha geração, escreveu um textão dando um basta na pressão infinita de magreza como sinônimo de beleza que ela sofre há décadas. Ela é uma mulher de 47 anos, está casada e não tem filhos, e não pode ter um arremedo de barriga numa foto sem que anunciem em capas de revista que ela está grávida - ficando claro que se ela não estiver, e vier a público desmentir (porque afinal não dá pra fingir que tá grávida, né?), aí fica bem claro para todo o mundo que ela está é "gorda" mesmo.


Toda mulher sabe o que é essa pressão, mas nenhuma de nós a sofre tão publicamente quanto as mulheres famosas, especialmente as que ficam famosas por sua beleza. Semana passada eu tirei fotos sem roupa com a incrível Ana Alexandrino, recortes expressionistas de closões do corpo pra servirem de cenário pro meu espetaclinho. Quando acabamos a tarefa falei "Cana, já tô aqui pelada, bora fazer uns nudes preu guardar na pasta: Maria aos 37". Fotografamos, rimos um bocado, ela me disse: te mando as fotos e posso mexer no que você quiser, mas acho que tá tudo lindo. E eu disse: eu não quero mexer em nada, quero aproveitar pra ver como eu sou de verdade e aprender a me achar bonita assim, mas vamos ver se meu ego deixa… Mais tarde no mesmo dia ela me mandou uma das fotos dizendo "olha que linda você" e eu olhei e só via minha barriga, minha barriga imensa, minha barriga semi grávida.

Aí hoje eu vi a barriga da Jennifer Aniston na nojenta capa de revista, e pra meu espanto dei um suspiro egoísta: caraca, a barriga dela é que nem a minha! Pra em seguida me sentir péssima por encontrar alguma espécie de alívio numa situação tão escrota vivida por uma outra mulher. Pra em seguida me dar conta de que eu estava, ainda mais uma vez, me comparando a outra mulher, em busca de afirmação. Pra em seguida ler a carta dela e aplaudir de pé, e entender ainda mais uma vez que a gente tá imersa demais nessa cultura pra conseguir se safar dela racionalmente, e pensar que precisamos desesperadamente mudar esse padrão que só impõe sofrimento a todas as mulheres do mundo.

Pior ainda: que faz sofrer as meninas. Ontem jantei com uma amiga e sua filha linda de onze anos que me disse "tia Maria, as vloggers do Youtube, elas já acordam lindas! Sem UMA olheira!". Aos onze anos eu fui pra Disney e exigi: na volta iria ao médico de regime porque ia engordar muito de tanto comer cachorro quente. Essa aí de maiô e canga sou eu aos onze anos na Disney, sem coragem de usar biquíni. Na volta da viagem eu passei meses comendo sopa e carne e perdi bochechas e bunda, que afinal era tudo que eu tinha pra perder.

Aquela ali de calcinha, sutiã e aparelho nos dentes sou eu aos dezesseis no camarim da peça do colégio, na época em que frequentava o Vigilantes do Peso e vivia pesando ítem por ítem do prato: pesa o arroz na balancinha, agora pesa o feijão, agora a carne, agora come tudo frio mesmo e tá bom demais. Aquela ali abraçando a Marieta Severo sou eu aos dezessete, e olha a tal da barriguinha já ali, sempre ali comigo. Aquela encostada na parede, de vestidinho e saltão, sou eu aos trinta e sete, e minha amiga barriga continua comigo. Aquele closão de barriga de grávida ali embaixo sou eu também, sábado passado. Só que como a atriz famosa me ajudou hoje a conseguir dizer: eu não tô grávida não, tô é de saco cheio de não conseguir achar bonita a mulher que eu sou. Trinta e sete anos, Maria, se liga: essa barriga é a tua barriga, mana, para de brigar com ela que cês duas vão ser bem mais felizes. O melhor jeito da minha filha - caso ela venha um dia - não se detestar aos onze anos, é ter uma mãe que se curta com todas as suas partes. Obrigada Jen pelo sacode no mundão e aqui dentro também.


Essa aí de maiô e canga sou eu aos onze anos na Disney, sem coragem de usar biquíni. 
Essa aí de calcinha, sutiã e aparelho nos dentes sou eu aos dezesseis no camarim da peça do colégio, na época em que frequentava o Vigilantes do Peso.


Aquela ali abraçando a Marieta Severo sou eu aos dezessete, e olha a tal da barriguinha já ali, sempre ali comigo.

Essa encostada na parede, de vestidinho e saltão, sou eu aos trinta e sete, e minha amiga barriga continua comigo. 




Esse closão de barriga de grávida aqui em cima sou eu também, sábado passado. Só que como a atriz famosa me ajudou hoje a conseguir dizer: eu não tô grávida não, tô é de saco cheio de não conseguir achar bonita a mulher que eu sou. 


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Original da carta:
http://www.huffingtonpost.com/…/for-the-record_us_57855586e…

Em português:
http://www.brasilpost.com.br/…/para-que-fique-claro_b_10960…

EDIT:
Acrescentando link pro live que a Luana Piovani fez hoje, bem luanapiovanescamente mandando uma real que eu assinei embaixo:
https://www.facebook.com/luanapiovanioficial/videos/753016071468286/?pnref=story

EDIT #2:
Meu amigo François Wolf lembrou que Tarantino lacrou o assunto barriguinha com essa cena antológica do Pulp Fiction, que não só faz uma ode a ela como nos relembra que dane-se o que os outros vão gostar, e termina: é uma pena que o que é prazeroso pro toque tão poucas vezes seja prazeroso pro olho. Gracias François e muchas gracias Tarantino!
https://youtu.be/E2TAmGmsw-o

11.6.17

Monólogo Público: obrigada, Michel





Esse é o Michel. O Michel é um monstro de luz. E de sombra. O Michel faz poesia com o corpo todo. No corpo do Michel tem cabeça peito bunda que bate no chão tem olho mão braço comprido pé barriga coração. No corpo do Michel tem um demoniozin irônico e um anjo que só diz verdades. 

Eu tô de peito rasgado a canivete enferrujado de avô, peito estraçalhado de pomba no alto da casa em frente, eu tô sangrando que nem aquele lutador de MMA recordista mundial de esguicho, eu tô agradecendo a sorte grande de estarmos vivos no mesmo lugar ao mesmo tempo, de ter visto o Michel, menino grandalhão, dizer poemas no palco do CEP 20.000, muito antes de eu imaginar que também iria dizer poemas ali, de ver em tempo real as marcas que ele deixa na superfície do mundo e poder abraçar ele depois, eu tão maior do que era quando sentei atrás dessa cabeça aí da foto. O que mais tem no Michel é coragem.

"Monólogo Público", de sexta a domingo no Sesc Ginástico. Só mais duas semanas. Não perde não, inocente. Vai lá sangrar também.

10.6.17

Lisboa: estréia no Bartô

O Bartô era nosso primeiro palco da turnê. UAU, todo mundo dizia! O bar do Chapitô, a incrível escola de teatro e circo de Lisboa, pendurado na Costa do Castelo, no alto das ladeiras da Alfama, sobre o mar. Uma referência na cidade. Pra mim, além de tudo isso, o Bartô era a casa da Susana e do Tércio, meus amigos que já tinham me acolhido na minha primeira ida a Portugal, no seu lindo e saudoso Mini Teatro da Calçada.

Por escolha e por acaso, porque tudo dessa turnê produzida com tão pouca antecedência foi uma soma desses dois, calhou de nossa estreia ser lá. Quarta-feira, 17 de maio. Com show do Luca Argel e do Mariano Marovatto no depois. No domingo anterior fomos fazer uma visita técnica e nos demos conta da trabalheira que vinha pela frente. O telão da casa era quadrado, e meus vídeos são retangulares. Além disso o Bartô é um L e o projetor ficava de frente pro lado do bar, e eu queria me apresentar de frente pra biblioteca. Ao testar o som, meu computador fez PUF e o som dele morreu.

Os dias seguintes foram de correria, instalação do Final Cut no computador da produtora caso o meu desse pau de vez (tiamo Liv!), descoberta da existência de uma maravilha chamada "placa de som externa" (tiamo Kuzka!), compra de tecido pra fazer uma nova tela (tiamo Saulo!), teste da projeção na posição que queríamos (tiamo Artur!), ajuste de cada foto e cada vídeo praquele tamanho e formato (eu me amo também!).

Na quarta-feira lá estávamos nós, animados mosqueteiros ajustando o que faltava. O palco era uma espécie de piscininha - lá já foi um presídio feminino, e ali as presas lavavam suas roupas. Adaptamos o cenário da Lara de luzes e tule praquele espaço. Chão de madeira, tecido preu pisar, pedra ao redor. Tudo pronto, quero ir me concentrar mas chega um amigo, chega outro, não consigo sair.

Eu saí do Rio dizendo pra família: eu quero é ir e fazer. Se tiverem cinco pessoas na platéia já tô no lucro. E aí foi chegando mais gente. Amigos. Amigos de amigos. Amigos da Liv. Desconhecidos. Amigos até então só de internet. Noivos que eu casei. Quando subi pra me vestir já era quase hora de entrar em cena. Pisei no palco menina de tudo, segura e insegura naquela exata medida.

E depois disso não sei mais de nada.

#umbigonazoropa

Lisboa, Bartô, 17 de maio de 2017.




Poesia por aí


Durante a turnê na Europa nasceu sem plano nem pompa uma nova playlist no meu canal do Youtube. #poesiaporaí na verdade nasceu como hashtag de vídeos no Instagram, e a Liv, minha produtora & camerawoman maravilhosa, pirou na idéia: temos que fazer em TODAS as cidades!! Claro que não rolou, né? Mas agora, já em casa, baixando e revendo as milhares de fotos e vídeos, não tem como deixar a ideia morrer.

"Poesia por aí" é poesia dita pelas ruas, e nessa viagem foram muitas ruas de muitas cidades... Aqui os três primeiros!

#umbigonazoropa #turnêdasmina #poesiaporaí






Lisboa - Poetas do Povo

Dois dias antes do espetáculo estrear em Lisboa, tive a honra e a alegria de ser uma das convidadas pelo Nuno Miguel Guedes pra participar do Poetas do Povo. O evento acontece semanalmente no Povo, restaurante delicioso na famosa rua rosa, e essa era a edição #209! Uma edição só de mulheres, batizada de "Ela por ela", então eu fiz minha primeira rodada de poemas nessa onda, com o contrabaixo lindo da Sofia Azevedo. Depois que me descobri feminista me dei conta de quantos poemas eu tinha sobre o feminino e o que é ser mulher.

O roteirinho teve:
Adélia Prado e seu fundamental "Com licença poética"
"Uma mulher é uma mulher", do meu primeiro livro, "Substantivo feminino"
"A musa do século 21", do meu segundo livro, "Bendita palavra"
"Pulso aberto", do meu terceiro livro, "Carne do umbigo"
e de quebra o hit "Pau mole", que acho que é um ponto de vista muito feminino sobre os homens...

Poetas do Povo, Lisboa, 15 de maio de 2017

Convidadas: Claudia Clemente, Maria Rezende, Marta Hugon e Rita Telhada
Música: Sofia Azevedo
Host: Nuno Miguel Guedes

#umbigonazoropa


Lisboa - Sarau Rua das Pretas

Rua das Pretas é um sarau incrível capitaneado pelo Pierre Aderne. Uma noite que mistura música, poesia, vinho e feijoada. Brasil & Portugal de mãos dadas!

Estive lá no sábado anterior à estréia do espetáculo em Lisboa, conheci uma pá de gente bacana que depois foi me assistir, e ainda tive a honra de dizer poemas com o incrível Pablo Lapidusas no piano. 

Depois ainda rolou o lançamento mundial da nossa primeira parceria, minha e do Pierre, canção dele sobre meu poema "Bipolar". 

Lisboa, Rua das Pretas, 13 de maio de 2017.

#umbigonazoropa #eurotour #amariadapoesia





5.6.17

#umbigonazoropa : o resumão

Eu só queria estrear, sabe? E ver como ia aguentar o batidão de apresentar quatro dias seguidos, eu que até então só tinha feito o espetáculo uma vez por semana. Não planejei escrever relatos, eles foram surgindo com o passar dos dias, enquanto a pele ia ficando cada vez mais fina e a carne cada vez mais viva. Aqui então um resumão em muitas palavras e poucas imagens do que foram as cinco noites de #umbigonazoropa. Em breve mais fotos, vídeos de pedaços dessas noites, de mergulhos no mar & dentro de mim mesma. Aqui, no blog antigo novinho em folha, feito pra nunca mais se perder.


LISBOA, BARTÔ

17 de maio, quarta-feira

Estreamos. Estreamos com casa cheia, portugueses e brasileiros, amigos antigos e novos e até gente que eu nem nunca ainda tinha visto ao vivo, olhares tão calorosos que até suei na noite fresca da primavera lisboeta. Essa sou eu dentro de uma espécie de piscina que já foi tanque de lavar roupas de um antigo presídio feminino e que hoje é o Chapitô, esse espaço mágico de circo e arte. Taí meu maior risco da vida até hoje, acho. Taí meu coração escancarado.

Estreamos. Obrigada a todos os envolvidos - todos mesmo, nossa equipe, quem veio ver, quem quis vir, quem tá no Brasil e marcou os amigos, quem mandou axé. Sentadinha no trem rumo ao Porto pra apresentação de hoje, eu sou realmente o amor da cabeça aos pés. 




PORTO, MIRA ARTES PERFORMATIVAS
18 de maio, quinta-feira

Porto. Um cubo de cortiça por todos os lados. Trinta lugares. Chega mais gente, tá lotado, tem mais cadeira ali. Manuela, a dona do espaço, me apresenta com as melhores palavras. Faz frio no camarim. No palco faz calor. Eu digo meus poemas como talvez nunca antes. As palavras soam novinhas, o corpo leve. É um espetáculo, é uma brincadeira. Os portugueses aplaudem pouco - no início. No meio já aplaudem mais, no final me abraçam muito. Vendemos todos os livros. A Patrícia dizia "é só hoje, quem não comprar vai ficar sem". Eles compraram. Eram 34 livros. Trinta e quatro! Voltamos pra casa, que essa noite era a galeria de arte propriamente dita: por trás da porta da exposição linda do Maia, nossos quartos com teto solar. Manuela e José, os donos, esquentam caril da vernissage e nos alimentam enquanto limpam a bagunça da cozinha. Vamos tomar um vinho na beira do Douro, faz frio, rimos, espantados de beleza e alívio e alegria.

Metade da turnê portuga. Hoje um trem pra Lisboa, um banho na nossa casa que não é galeria de arte mas é lar, já, e logo tudo de novo: desenrolar 40 metros de tule sobre luzes de led com Livian e Saulo, ajustar cada foto praquela parede, testar o som, achar que não vai dar tempo, dar tempo, vestir o figurino, entrar em cena, ver sem nem olhar Liv concentrada dar o play e ouvir o primeiro vídeo dizer "eu sou aquela que tem calma". Ter calma com o coração a pulsar no peito, na boca e na palma das mãos.

Obrigada Espaço Mira e Mira Artes Performativas por essa noite inesquecível de arte e afeto. 



Pra ver as fotos lindas da Patrícia Barbosa clica aqui.


LISBOA, CAFÉ DO LARGO
19 de maio, sexta-feira

Terceira apresentação em três dias. Lisboa de novo, depois de mais um trem. Pouco tempo pra montar, o Kuzka e Gilles terminam de passar o som, estamos ficando cada dia mais sagazes, Saulo faz magia pra alinhar a projeção torta, Liv ninja monta a luz, a banca de livros, me alimenta e passa arnica na minha escápula bichada. O Café do Largo fica numa residência artística, meu camarim é um quarto com cama de casal e banheiro, mesinha e abajour.

Tô acabando de me maquiar quando chega a notícia: o laptop do Kuzka morreu. Morreu de que?! Como?! Ninguém sabe, mas tá morto. Ligo pra ele, ele que me salvou domingo quando a placa de som do meu laptop morreu. Não vai ter show depois. Meu coração vai na boca. "Desce que tá muito atrasado", apita a mensagem da Liv. Me visto estupefata, entro em cena e ouço "eu sou aquela que tem calma". A calma demora uns cinco poemas a vir.

Na platéia lotada novos amigos, a Lua da Bahia e a Sara de Lisboa, a Luzia que já assistiu quarta e voltou, a Marysia que quarta se trancou fora de casa mas hoje tá livre e veio, o Vital que carrega meu risco tatuado no braço e que nos deu Saulo de presente, o Gilles que passou som e não vai mais tocar. Aviso que tô nervosa, erro um tanto, alguns sorrisos na platéia são como sóis, Anna Maria, Artur, uma portuguesa recita junto comigo o poema do Pessoa, o coração aquece, a sala ferve, eu suo muito e relaxo os músculos, começo a dizer tudo novinho de novo. Hoje é bar, tem microfone, tem canja musical, Pierre Aderne tocando nossa parceria, eu canto como se cantora fosse, com a alma feliz. "Por que é que a gente separou?"

Terceira noite seguida de dizer os versos que um dia escrevi e ver os vídeos que fiz com imagens e as fotos da Ana com imagens do meu corpo. É insano. Saio de cena em carne viva. Hoje cedo trem e mais. Ovar. Norte. Tem mar, faz sol e não trouxemos maiô. Dormiremos e depois: desbravar mais uma camada de carne. A pele já nem se vê mais. Turnê.



Pra ver as fotos lindas do Alfredo Matos clica aqui.



OVAR, CASA DO POVO
20 de maio, sábado

“Leva biquíni”, diz a produtora quando estamos quase saindo de casa em Lisboa, atrasados pra pegar o trem. Eu ri e bati a porta. Três horas de trem depois e a surpresa: Ovar tem mar. Não era brincadeira. Uma cidade mini, uma cidade marítima, uma cidade de azulejos e brasileiros - como eram chamados os muitos portugueses que foram fazer a vida no Brasil quando voltavam pra lá. Dormimos muito tortos no trem menos moderno, chegamos exaustos e famintos. Gil nos busca na estação de comboios, nos leva pra comer e planejamos: depois do almoço, ir ver o mar. Depois do almoço: cama. De todo modo o mar é gélido, diz o dono do hotel. Ufa, penso, nem vai fazer falta o biquíni. Às 17h chegamos na Casa do Povo, um prédio restaurado onde funciona a AV FM, a rádio que está promovendo a noite. Reencontro o Sandy, um abraço de amigos quatro anos depois da única vez em que nos vimos. É a convite dele que venho. Do nosso único encontro em Famalicão em 2013, quando pela primeira vez disse poemas na minha língua em outro continente, e no final um escocês de português meio troncho me abordou tímido pra dizer “tu és uma força da natureza”. Às vezes as redes são mesmo redes, enlaçam, juntam.

O teatro é um brinco, uma caixinha de música, o primeiro palco italiano da história do “Carne do Umbigo”. É também nossa primeira montagem serena, sem percalços, sem problemas. O Sandy sim tem percalço: seu violão de repente para de conversar com a mesa de som. Não é possível, penso. Minha placa de som morreu, o laptop do Kuzka morreu, agora a parte elétrica do violão do Sandy. Serei eu? Tô dando choque? Sei que tô energética. Tô fio desencapado de emoção. Sandy nem se abala: é só microfonar o violão. Vamos ensaiar nossos momentos juntos que é o que importa. Poemas em duas músicas, ouço eles tocarem de livros na mão, buscando palavras que conversem com as canções. Vamos jantar, nossa equipe, a banda dele, volto antes pra ficar um pouco em silêncio. No palco minha projeção é atravessada pelos instrumentos, meus metros e metros de tecido envolvem pedestais e retornos, a noite é nossa, tudo se abraça.

Me visto no banheiro mais lindo do mundo, um mar de azulejos azuizinhos. Tô pronta, Saulo aparece como combinado, abraço ele com jeito de último dia mas ele tá assustado, a luz caiu, não é pra eu ir ainda. Lá vem coisa, penso. É com emoção, tem jeito não. Liv me chama: a projeção sumiu. Calma, de figurino, casaco, meias e sapatos, desço as escadas e penso que sei exatamente o que fazer. Aperto aquela meia dúzia de comandos no Final Cut e pronto: já está. Suspiros de alívio gerais. Em cinco minutos tô no palco. Casa cheia. As janelas abertas me revelam a quietude de um sábado à noite numa pequena cidade portuguesa. Na platéia muitos jovens, o oposto do Porto onde a maior parte do público era bem mais velho do que eu. Eles aplaudem calorosamente desde o primeiro poema, coisa ainda inédita por aqui. A cada noite os aplausos começam mais cedo, como se todas as platéias fossem a mesma e fossem ficando mais quentes na medida em que passam os dias. Ou talvez seja eu mais quente, cada dia mais nua, mais sem pele. Chamo meu último vídeo e subo pra trocar de roupa, lá de cima ouço os aplausos explodindo e silenciando na medida em que a voz do Sandy em vídeo invade o espaço. Hoje não tem créditos finais, não tem volta pra cena, hoje não tem fim. 

Quando volto, já sem figurino, Sandy tá no palco com Edgard e Pedro, e soam os acordes da primeira canção. Como é linda a música dele! Que imensidão! Já na segunda música ele me chama, sento no chão e leio os versos de um poema na parte instrumental de “Song of the shadow”. Só depois me dou conta de que é “Quarto crescente” o mesmo poema que gravei em espanhol em Barcelona ano passado e que vou fazer ao vivo depois de amanhã com Pau no show lá. Volto pra platéia e mergulho na música linda dele. “Sunday mornings” é uma canção sobre as manhãs de domingo em família, ele conta antes de cantar, e antes do meio da música já tô banhada em lágrimas boas. É muita beleza no mundo. Meu coração é uma plantação de alfazema. Lilás. Perfumado. No bis eu volto pra mais um poema e nem sei como falar em público mais. “No escuro dos olhos fechados me equilibrar no desejo”. O poema me salva. Fecho os olhos e sinto a música e danço com a língua.

A noite acaba. Acabou a turnê portuguesa. Nada acabou. Coisas assim não têm fim. Eu estiquei sem rasgar, que nem peito adolescente com estrias roxinhas de crescer num salto, num susto. Vamos dormir quase cinco e às nove e meia tô de olho aberto, correnteza de sensações. Tomo café, faz sol, decidimos ir pelo menos ver o mar e molhar os pés na água gélida. Liv, Saulo, Sandy, Edgard, pés na areia, corto o dedo numa pedra, enfio os pés na água e ela é deliciosa, fria e amorosa como o mar de Ipanema no verão. Topless pode mas minha calcinha é transparente, e o vestido novo de 15 euros, comprado pra ser camisola e que já virou roupa de falar na tv é agora maiô. “Ó mar salgado, quanto do seu sal são lágrimas de Portugal?”. Mergulho. Nos olhos o sal de dentro e o sal de fora. “Quando entrar na água sempre agradeça”, diz a mãe. Obrigada, obrigada, obrigada. Segunda onda. Terceira. Mergulho, agradeço, choro muito e rio demais. Do lado de fora do mar Liv me espera com um abraço. “Olha só onde nós estamos!”. Olha só, parceirinha. Que coisa mais linda nosso encontro, duas entusiasmadas, realistas esperançosas, místicas, com o dom da alegria e as mãos cheias de sim. Turnê das mina. É nóis demais. Maquiagem no taxi, massagem na coxia, abacate de manhã, pastéis de nata, fotos e vídeos a qualquer hora. O trem sai em uma hora, não tenho shampoo nem pente, lembro do trecho do poema inédito que diz


“Cabelos não sentem
não suam
não têm função
servem só pra fazer falta quando faltam
servem só pra enfeitar e carregar

Levam o mar em nós de sal
a água doce antes de evaporar
o suor do desejo consumado
e cada cheiro do caminhos

Cabelo vivo
guardião de beijos
ninho sem pássaros
perfume em que os dedos podem se enroscar”


Três e dez da tarde de domingo, 21 de maio de 2017. Carrego os últimos quatro dias nos cabelos e dentro do peito e na carne que pulsa sob a pele. Sou eu mesma e muito outra. Sou eu mesma atravessada de força e beleza. Nunca fui tão eu mesma antes. Arriscar: não existe nada melhor. Sou eu mesma, maior.




Pra ver as fotos lindas do Miguel Vieira Pinto clica aqui.


BARCELONA, CLUB CRONOPIOS
23 de maio, 3a feira

Barcelona. Última apresentação da turnê. Acordamos às cinco da manhã em Lisboa pra pegar o voo às 9h. Eu tinha ido dormir às 2h e sabia que precisava de mais sono mas meu plano era finalmente fazer o que achei que teria feito em todos os trens: estudar os poemas em espanhol. Só que agora já era a véspera do espetáculo. Ainda daria tempo de aprender? Por que eu sou essa louca que se joga de abismos tão imensos, meu deus? Por que eu sou hippie e fui ao mar agradecer ao invés de praticar?

O voo decola, Liv dorme, eu pego o celular com as mil mensagens da Paula corrigindo e comentando cada poema, falando com seu espanhol bonito que eu vou tentar copiar. Franco traduziu todos os poemas há mais de um mês, Miguel aceitou ser meu professor de espanhol à distância e me corrigiu e respondeu todas as dúvidas esquisitas que minha poesia gera: buceta em español, melhor dizer concha ou coño? Pau mole, como fala? Gozo tem que ser disfrute? Ah existe a palavra gozo mesmo? Boa. Ando há semanas com esse papel na bolsa, mas estudar que é bom só ali, no avião, faltando menos de 48h pra estrear bilíngue pela primeira vez.

Chegamos e Maria Elisa nos espera com aquele jeito das melhores mães. Nos leva pra almoçar, pede vinho, eu queria estudar, digo, mas comemos e bebemos e falamos das melhores coisas. Saulo chega, se junta a nós. Eu digo poemas em espanhol, ela se emociona, elogia. Sereno um cadin. A embaixadora, atual Cônsul do Brasil em Barcelona, a mãe da Aninha, querida minha, aprovou meu sotaque. Vou ao consulado conhecer Edgard, o homem que achou boa minha insana ideia de espetáculo bilíngue e disse “venha e vamos fazer acontecer”. Nos reunimos na Sala João Cabral de Melo Neto e sorrio pra esse acontecimento. Saio de lá já atrasada pra visita técnica no Club Cronopios, onde está Luciana, da Meta Brasil, a outra instituição que organizou com a gente essa vinda. O clube é lindo, um clube literário que não cobra ingresso mas exige associação, testamos projeção, som, tudo impecável, ajusto as fotos e deixo tudo pronto pra amanhã, saio correndo atrasada pra ensaiar com Pau.

Pau é meu amigo baterista, músico incrível e no estúdio de quem eu gravei poemas em espanhol ano passado. Nesse dia, quando fui gravar lá, falei pra ele que tinha pensado em juntar um poema meu que fala sobre mulheres com uma canção que me salvou a vida numa madrugada uns meses antes, uma canção xamânica, curadora, de uma mulher chamada Amparo Sanchez. Amparanoia? ele me perguntou. Não, eu disse: Amparo Sanchez. Mas ela mora aqui, disse ele. Paralisei. Não era possível. Era meu penúltimo dia, entrei no Facebook, escrevi o nome dela, e não só ela morava na cidade como tinha tocado na véspera. Morri. Voltei a mim e fiz o que faço numa hora dessas: escrevi pra ela contando tudo isso. Da sua canção que me salvou, da gravação que estávamos fazendo, da minha admiração, do meu desejo de mandar pra ela meu livro. Ela responde, carinhosa, gentil, eu quase morro de alegria. Nos falamos algumas vezes depois disso, e eu mal posso crer que troco mensagens com essa mulher tão poderosa e importante pra mim. Pau então, sem planejar nem nada, me deu Amparo de presente, e serei eternamente grata por isso. Quando marquei o espetáculo aqui logo convidei ele pra fazermos dois poemas com seu lindo hang. Chego pra ensaiar exausta, bocejante, sem conseguir concatenar bem os idiomas, e logo tô animada, sorridente, feliz com nossas ideias e como elas se concretizam no ensaio.

Ele me chama pra ir ao WTF Jam Sessions no Jamboree, onde nos conhecemos, motivo de eu ter trocado minha passagem da última vez, só pra poder dizer poemas naquele palco. Tô cansada demais, só quero comer algo rápido e ir pra cama, e penso: aproveito a carona e apareço de surpresa no Viana, dou um beijo em Miguel e Arek, como aquele tartare de atum genial e vou dormir. No caminho Miguel escreve, vai jantar com amigos, eu não quero me juntar a eles? Invado uma mesa galega, todos riem muito, falam coisas bonitas que eu não entendo bem, Miguel vai pedindo delícias, é uma degustação, é um spa de alegria, eles bebem vinho, eu bebo água, comemos como loucos, as gargalhadas aumentam, a sobremesa chama “às vezes melhor que sexo” e eu penso que bom é não lembrar da última vez que o sexo foi pior que chocolate. Volto pra casa leve, bem mais tarde do que tinha planejado mas muito mais descansada do que estaria se estivesse deitada vendo celular e tentando ensaiar com a cabeça derretida.

Acordo terça 11h30. Tô serena, tô segura. Só preciso ajustar o roteiro e mandar pra Liv e Saulo imprimirem. Marcamos ensaio de 13h às 14h30, daí eu descanso até às 17h quando temos que estar lá, penso. Só que não, claro que não. Eram muitas mudanças no roteiro de Portugal. E no projeto do Final Cut. Trocar todas as deixas em espanhol. Botar os vídeos legendados. Abrir espaço pra participação especial do Pau. Ver email pra checar se Amparo confirmou mesmo que vai.

Amparo vai? Amparo vai. Amparo vai! Porque é claro que assim que eu fechei o espetáculo em Barcelona, além de convidar o Pau, eu convidei a Amparo. Porque seria das maiores honras e alegrias da minha vida inteirinha ter essa mulher no palco comigo, e eu não tenho medo de não. Convidei ela no início de abril. Amparo nunca me viu na vida, não é minha amiga, mas diz que pode ser que esteja na cidade e adoraria ir me assistir. Então, eu continuo, não quero você na platéia não, quero você tocando “Alma de cantaora” enquanto eu falo “Pulso aberto”. Ah, ela diz, pode ser que sim, vamos ver mais perto minha agenda? Vamos. Vamos sim. Meu coração palpita a cada mensagem que ela responde. Tão fácil seria ela me despachar, ilustre desconhecida que sou. O tempo vai passando e ela vai dizendo cada vez mais que sim, mas me pede pra não incluir seu nome na arte, e ficamos assim, com Amparo leve e meu coração fazendo figa. É terça-feira, dia 23, 14h, e chega o email: “Hola Maria, tengo apuntado en mi agenda tu espectáculo hoy, a que hora va a ser?”. Eu dou um grito sozinha na casa vazia. Choro de soluçar. Amparo vai. Que fodona e maravilhosa é a vida!

Depois disso é tudo um flash. Ensaiar. Lavar os cabelos. Botar o vestido mais bonito. Chegar no clube e esperar que cheguem as pessoas que vão abrir com faca afiada de amor o meu sorriso. Miguel chega, ele conseguiu mesmo não ir pro restaurante, que alegria! Pau chega com sua bici. Amparo chega. Abraço ela, toda fã, menina de seis anos sem saber onde botar as mãos. Entramos na sala de espetáculo, um hang, um violão azul, um coração saindo pela boca. Ela começa a cantar como se fosse normal: “Soy el poder dentro de mi”. Eu nem sei como existir ao vivo nesse momento. Volto à madrugada insone em que eu não sabia mais quem eu era e essa canção me deu a mão até a chegada da manhã. Pau começa a tocar junto e é lindo Inventamos juntos como fazer, sugiro falar o poema no início, não quero incomodar, não quero dar trabalho, ela diz não, fala no meio, eu abro um espaço pra você. Parece impossível mas tá acontecendo. O nervosismo da tarde sumiu e tenho agora a alegria de quem batalhou pelo sonho e tá vendo ele virar carne.

Vou me vestir e maquiar, não podemos atrasar. Fico pronta e nada. Liv vem: espera que tá chegando gente. Ela volta: espera que tem muita gente, espera que lotou e estamos tentando acomodar. Mas o cara não disse que cabiam 70 pessoas?! Pois disse. E já só tem lugar no sofá de ladinho. Me fecho no camarim de um metro quadrado e repasso na cabeça a ordem do roteiro toda diferente, que poema em português encadeia com qual em espanhol, é “retrasado” e não”atrasado”, célula madre e não tronco, e aquele verso “se retuerce o rostro, se contorce el gesto, me laten los pies, se descontrola el ojo izquierdo” travalínguas tá na ponta da língua já.

Luciana fala em nome do Consulado e da Meta Brasil, me chama, eu vou. Não tem uma cadeira vazia. Liv dá play no vídeo: eu sou aquela que tem calma. Entro em cena em português, passo direto pra Carne del ombligo en español: eclipses en escorpión, cambio, revolución. O poema acaba e os aplausos são calorosos. Eu rio, já suada de nervoso e calor humano. Todas as falas entre poemas serão em espanhol - ou no meu portuñol selvage, explico. Digo que não sou fluente mas arte é risco e vim correr o maior da minha vida, e se é pra ser assim vou logo então ler um poema curto em português, espanhol e catalão (obrigada Pau pela tradução & aula). Eu tô na corda bamba e tem cento e quarenta mãos pra me acolher caso eu caia. Mas eu não caio. É minha noite de equilibrista bailarina, cada língua é uma torre do World Trade Center e eu ando leve entre elas.

Chega a hora da Amparo. Conto a história. Chamo ela. Nos abraçamos em cena, no meu palco, sobre meus muitos metros de tule cor de pele, eu de figurino, com o coração na buceta e um pulmão nos joelhos, nos abraçamos e Pau vem com a gente e a noite mais épica da minha vida acontece de verdade, naquela hora. Amparo começa a cantar e eu fecho os olhos e ponho a mão no peito e na barriga e choro sem nem medo de borrar a maquiagem. Na hora do poema cadê espanhol? Falo minha língua, e ela reage aos versos e toca baixinho e retoma o refrão quando eu termino.

Parece que nada mais pode existir depois disso mas existe muita coisa bela. Tem mais poesia, tem a canja linda do Pau fazendo nossa gravação pela primeira vez ao vivo, “Quarto crescente” em espanhol com hang, e a novidade de “Transparência” comigo cantando “Sanar”, do Drexler, como eu sempre sonhei fazer e nunca tive coragem, mas do que ter medo em uma noite como essa? E aí tem aplausos de pé, tem eu chamando Liv no palco e chorando ao agradecer a ela toda a parceria que fez essa loucura ser possível e tão incrível, tem Miguel tímido com meu agradecimento por toda sua ajuda com meu espanhol, tem todos os livros vendidos e lista de espera de quem ficou sem (mas como se trouxemos cem livros do Brasil?! assim mesmo: esgotaram todos!), tem Maria Elisa emocionadíssima e eu feliz de não ter dado vexame e constrangido o Consulado, tem Kika e Mickey que conseguiram chegar antes de acabar, tem Luciana feliz e nós gratos ao seu marido que foi tirar fotos, tem Sabrina que veio e trouxe amigos e nos ofertou um fotógrafo pra gravar na íntegra (gracias, mujer!!), tem uma trupe de dezesseis pessoas andando pelas ruas de Barcelona até sentar na Rambla do Raval numa mesona ao ar livre e tomar sangria e comer massa e se beliscar pra crer na imensidão de beleza que acaba de acontecer.

Acabou nossa turnê. Cinco noites. Quatro cidades. Dois aviões. Quatro trens. Um sonho meio louco. Duas mulheres entusiasmadas achando a loucura uma ótima parte da vida e focando no sim e se dando força na hora das merdas e rindo na madrugada. Acabou. Mágica. Imensa. Inacreditavelmente bela. E pra toda a eternidade eu vou me lembrar da noite em que cantei junto com Amparo e toda a platéia a canção que me deu a mão. A todos vocês que me dão tanto a mão também, agradeço lá do palco, com uma mão na barriga e outra no coração.



Pra ver as fotos lindas do Toni Arnau clica aqui.

#umbigonazoropa #amariadapoesia #carnedoumbigo #turnêdasmina

4.6.17

Eu voltei! Agora pra ficar...

Quatro de junho de 2017. A data vai estar ali em cima, eu sei, mas escrevo como escrevia na escola, como se fosse o primeiro dia de aula e essa fosse a primeira página do caderno novo. No caderno antigo a última página diz: 27 de maio de 2015. É a data do último post aqui até esse, até hoje. Dois anos depois, ó eu aqui de volta.

Lembro de quando primeiro quis ter um blog. Eu ainda morava com meus pais, não entendia lhufas de internet e chamei o Gluz lá em casa pra me ensinar como colocar negrito, como usar itálico, como colocar links. Criei o blog, não engrenei, daí esqueci a senha e o negócio não foi pra frente.

Um tempo depois tomei coragem de novo e esse blog aqui nasceu. Dezoito de maio de 2004, me diz o arquivo de posts. Essa, aliás, é a razão pela qual volto, treze anos depois (TREZE?!). Arquivo. Memória. Coisas que o Feicibuqui não me oferece. O Feicibuqui, aliás, hoje me deu de presente um videozinho comemorando meus oito anos lá. Ao longo desse tempo eu fui achando blog um negócio antigo, obsoleto, e pra que escrever aqui pra depois compartilhar lá se eu podia simplesmente escrever lá direto, né?

Porque aqui tem arquivo. Memória. E lá meu textão de dias atrás já sumiu na fumaça, e eu mesma se quiser reler peno por horas tentando encontrar. Já aqui tem arquivo. E nele eu fico sabendo que fiz 27 posts em 2004. 55 em 2007. 115 em 2011. Se eu quero achar um texto antigo eu penso numa palavra chave e pimba: ele aparece. Para o bem e para o mal, nada some no Blogspot.

Hoje, junho de 2017, voltando da incrível turnê do Carne do Umbigo na Europa, me dei conta de que não quero perder os relatos emocionados que fiz daqueles dias. Deu vontade de ter de novo onde escrever longos textos e poder voltar a eles sempre que quiser.

Então, quem diria, voltei. De cara nova, com foto linda do ensaio da Ana Alexandrino pro espetáculo como fundo, mais discreta do que nunca e com animação adolescente. Voltem também, migos. Voltem sempre.